

História e revoluções
A história de Cuba é um dos maiores relatos de combate à exploração que conhecemos, e cujas conquistas têm-se mantido vivas. Já no século XIX, Cuba enfrentou uma das maiores lutas pela libertação do domínio espanhol, batalhas que consagraram José Martí como herói nacional e culminou na vitória de Cuba com o apoio norte-americano.
Esse apoio, porém, logo se transformaria na nova face da opressão. Poucas décadas depois da independência, Cuba não passava de um grande cassino dos Estados Unidos, uma ilha onde o único funcionário bem pago era o crupiê (empregado que trabalha as cartas no jogo de pôquer), o índice de abortos era altíssimo, acompanhando o alto número de prostitutas, quase não havia médico e a educação era privilégio de uma minoria residente em Havana, capital do país.
No contexto dos anos 1950, com a ascenção do golpista e ditador Fulgêncio Baptista, um grupo de jovens liderados por Fidel Castro, filho de latifundiários e que, até então, desfrutava de extremo conforto em meio à miséria que predominava na ilha, organizaram um movimento de derrubada do governo. Após tentativas fracassadas de tomada do poder e de um exílio de cinco anos no México, onde Fidel conheceria Ernesto "Che" Guevara, o retorno dos guerrilheiros à Ilha, no primeiro dia de 1959, com apoio do Partido Comunista e das rádios piratas convocando o povo à greve geral, seria triunfal. O exército rebelde desfilou pelas ruas de Havana e tomaria, sem derramamento de sangue, o palácio presidencial.
A afirmação do socialismo cubano
Com o poder em mãos, os dirigentes revolucionários trataram de moldar o país às necessidades do povo. Expropriaram indústrias e latifúndios, que passaram a ser propriedade do Estado, o que representaria propriedade do povo cubano. Em represália, os Estados Unidos, que perderam propriedades em Cuba, cortaram todo o comércio que mantinham com a Ilha, o que levou o governo cubano a se aproximar da União Soviética e do marxismo.

Fidel Castro em discurso ao povo cubano
O episódio da Crise dos Mísseis, que envolveu diretamente o regime cubano no jogo de cartas da Guerra Fria, é um dos mais controversos e menos esclarecidos. Freqüentemente se é levada em conta a tese de que União Soviética e Cuba apresentaram espontaneamente uma postura agressiva, sendo posto mísseis com ogivas nucleares neste país com apontamento direto a Whashington. Ignora-se, porém, que essa atitude foi uma resposta à posição de ogivas norte-americanas na Turquia, direcionadas a Moscou. A crise somente se resolveria após o passo atrás que o governo de John Kennedy promoveu, retirando seus mísseis de terras turcas, o que gerou uma divisão na cúpula norte-americana, e, possivelmente, foi um dos fatores que levaram à conspiração que mataria o presidente ianque.
Durante os anos 1960 e 1970, Cuba ofereceu asilo político e treinamento de guerrilha para vários militantes latino-americanos que encamparam a luta armada na tentativa de derrubar ditaduras instaladas nesses países. Esse apoio se deu também a países africanos: o caso mais clássico é a oferta de soldados cubanos para lutarem no Movimento Popular pela Libertação de Angola, que levaria a ascenção do primeiro regime socialista na África após a expulsão dos exploradores americanos e europeus. Che Guevara, que fora Ministro da Indústria de Cuba até meados dos anos 1960, seria um dos combatentes de várias guerrilhas no Congo, na Argentina e na Bolívia, onde foi, enfim, capturado, em 1967. Após o fuzilamento, sua cabeça foi exposta em praça pública, o que causou extrema comoção popular, uma vez que o semblante de Che, barbado e cabeludo, lembrava aos bolivianos do martírio de Jesus Cristo. Seus restos mortais somente foram encontrados em 1997, debaixo duma ponte, e levados a Cuba.
A nova fase da Revolução e a saída de Fidel
Com a implosão da União Soviética, em 1991, o regime cubano se viu politicamente enfraquecido e carente de recursos. As frentes de guerrilha no continente já haviam refreado, uma vez que os governos de exceção haviam caído e democracias liberais eram implantadas. As conquistas cubanas, porém, permaneciam sem paralelo nos demais países desenvolvidos ou em desenvolvimento nas Américas: Cuba permanecia sendo o único país a erradicar o analfabetismo, a garantir o abrigo para todos, a encampar a maior campanha de igualdade dos gêneros sexuais e a fornecer o melhor sistema de saúde público a seu povo. A crise econômica, no entanto, levou o país a abrir parte de sua economia a negócios privados, embora mantendo a gestão estatal, como o Turismo (o sistema hoteleiro cubano é gerido por militares).
Com a subida de Hugo Chávez ao poder na Venezuela, em 1998, a América do Sul deu um novo passo na luta contra o imperialismo norte-americano. Sendo a Venezuela um dos maiores produtores de petróleo da OPEP, o país pôde financiar movimentos populares internos e oferecer apoio econômico a aliados políticos, além de promover uma intensa campanha em favor da Revolução Bolivariana e, posteriormente, pela construção do socialismo venezuelano, nos moldes do século XXI, não seguindo exatamente a linha marxista, embora com apoio do Partido Comunista. Com o auxílio venezuelano, Cuba viu novo fôlego para alimentar o seu crescimento, já recuperado da crise dos primeiros anos pós-URSS. O modelo educacional cubano, inclusive, foi responsável pela erradicação do analfabetismo na Venezuela de Chávez.

Fidel e Chávez, com retrato de Simon Bolívar ao fundo
Com o anúncio de sua saída do cargo efetivo de Presidente do Conselho de Ministros do país e de Comandante-em-Chefe das Forças Armadas, Fidel Castro despede-se de seu papel como chefe de estado e de governo com um dos maiores legados políticos de sua geração. Cuba mantém-se com índices sociais no nível dos maiores países desenvolvidos, além de permanecer como baluarte dos movimentos de esquerda no seu continente. Após passar os primeiros anos de poder num contexto extremamente prejudicial para qualquer postura de libertação, que foram os duros anos 1970, Fidel deixa-o observando no continente uma fase de otimismo e de efervescente luta anti-imperialista, com governos de esquerda ou centro-esquerda na Venezuela, Bolívia (Evo Morales), Equador (Rafael Correa), Brasil (Lula), Chile (Michele Bachelet), Uruguai (Tabaré Vasquez), Argentina (Nestor e Cristina Kirchner) e Nicarágua (Daniel Ortega). Ventos de libertação que sopram também no Paraguai (onde o candidato Fernando Lugo tem nítida preferência popular) e até mesmo nos Estados Unidos, onde um candidato negro e de descência árabe, Barack Obama, pela primeira vez desponta com possibilidades de vitória. Embora seja uma figura que mantenha ligações com a direita, é uma grande conquista em observando a realidade desse país.
O futuro
No domingo, 24 de fevereiro último, Raúl Castro Ruz, irmão mais novo de Fidel, foi nomeado novo mandatário da nação cubana, com o objetivo de oferecer mudanças na economia com vistas a favorecer o povo cubano e manter as conquistas revolucionárias. Há de se levar em conta, entretanto, que estas mudanças não são aquelas que difundem a cartilha norte-americana e da mídia burguesa e reacionária. O socialismo cubano mantém firme defesa da Revolução e seu povo tem plena consciência do papel opressor que os Estados Unidos esperam promover na Ilha, como o fazem em todo território sob seu domínio.
A passagem de poder de Fidel para Raúl, sem que fosse sequer discutida a possibilidade de intervenção americana, é o maior sinal de que o regime em Cuba tem força própria. Foi com timidez que George Bush reagiu à notícia, a despeito de sua agressividade quando falava de Saddam Hussein. Bush bem sabe, é claro, que não pode fazer nada aos cubanos. Aquele pedaço de terra representa para milhões muito mais do que pode imaginar sua cúpula governista ou a mente restrita e senil dos repórteres brasileiros de direita.
Não é de hoje que a luta contra os Estados Unidos está na ordem do dia em Cuba. Logo após a sua independência política da Espanha, em 1889, o general Máximo Gomez, assinalou a meta a ser conquista a partir dali: "De agora em diante, os cubanos devem unir-se e trabalhar para que a ocupação militar americana chegue ao fim". A burguesia americana, na sua pequenez, foi obrigada a aceitar da forma mais salgada essa pioneira resolução de um povo latino-americano questionando o seu domínio.
GALERIA
Che Guevara e Camilo Cienfuegos: dois heróis da Revolução falecidos poucos anos após a tomada do poder (Cienfuegos morreria num desastre aéreo ainda nos anos 1960)
Che Guevara, Ministro da Indústria em incansável trabalho manual

Fidel Castro, Raul Castro (atual presidente) e Che Guevara

Foram 49 anos, dez presidente norte-americanos, milhões de dólares deste país gastos em espionagem, outros milhões em propaganda ideológica anticubana no mundo todo e mais outros milhões no financiamento da vida de gala de cubanos residentes em Miami -
e o regime socialista da Ilha persiste. Agora, mais firme do que nunca.
Che Guevara e Camilo Cienfuegos: dois heróis da Revolução falecidos poucos anos após a tomada do poder (Cienfuegos morreria num desastre aéreo ainda nos anos 1960)
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Foram 49 anos, dez presidente norte-americanos, milhões de dólares deste país gastos em espionagem, outros milhões em propaganda ideológica anticubana no mundo todo e mais outros milhões no financiamento da vida de gala de cubanos residentes em Miami -
e o regime socialista da Ilha persiste. Agora, mais firme do que nunca.

2 comentários:
Excelente texto camarada
abraços
Excelente texto! Resumido e esclarecedor!
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