Por séculos a miséria e a injustiça vêm se abatendo sobre nosso país. São milhões de brasileiros os que vivem à margem, destituídos das condições básicas de sobrevivência, negligenciados em seus direitos elementares e violentados em sua dignidade. Milhões de brasileiros que com suas vidas e sonhos, ao longo de toda nossa história construíram uma nação rica e gigantesca, e que no entanto vêm sendo paulatinamente excluídos do acesso à riqueza que produziram.
Indignados, presenciamos a realidade de nossa juventude, morrendo aos milhares, vítima da violência sem limites que assola sobretudo a população mais pobre dos grandes centros urbanos; o drama da desnutrição e do abondono no semi-árido de nosso nordeste; a falta de emprego e a precariedade das condições de ensino e aprendizagem nas escolas e universidades públicas.
Inconformados, assistimos à grande mídia que impõe o consumo como padrão de valor e comportamento. Assistimos à construção de uma sociedade onde a solidariedade não tem vez e a esperança nos é negada, tornando-se cada vez mais rara. Onde a competição e o individualismo são propagandeados como solução para nossos problemas. Onde o ser humano se torna progressivamente mais egoísta e embrutecido. Assistimos, e resistimos. Resistimos e dizemos não!
Desde as Capitanias Hereditárias, as elites tentam nos convencer de que somos um povo dócil e servil. Que a abolição seria impossível, assim como a república. Que as mulheres não poderiam votar ou que jamais derrubaríamos uma ditadura ou deporíamos um presidente. Mas nós rejeitamos esse fado, negamo-nos à servidão e escrevemos nossa própria história. Dessa recusa, surgiram nossos quilombos, cabanagens, balaiadas e levantes. Dela surgiram os abolicionistas, a Guerrilha do Araguaia e seus heróis, as Diretas e os caras pintadas.
Recusamo-nos a permancer deitados eternamente e nos levantamos. Camarada, Levante!
O Brasil que nós queremos só é possível construir com muita luta e com novas posturas. Seu surgimento depende de nossa ação cotidiana nas escolas e universidades, na lavoura, no estágio e nas fábricas. É o país da solidariedade e da inclusão, do acesso e da democracia. Ele é o Brasil socialista.
Nossa época é marcada por uma concentração de riquesas nunca antes vista. O avanço do imperialismo ianque tem levado o mundo a guerras insanas e ao aprofundamento das desigualdades e do antagonismo entre países ricos e pobres, entre a classe trabalhadora e as elites.
Vivemos num mundo de angústias e esperanças, de tirania e luta. Ao passo em que a política imperialista se torna mais belicosa e agressiva, fortalece-se a resistência popular em todo o mundo. A cada disparo em solo iraquiano, novas vozes clamam paz. A América Latina se levanta e reage a décadas de colonialismo. O neoliberalismo é rechaçado continuamente pelos povos latino americanos, que através das urnas, tomam rumo à esquerda.
Hugo Chavez e Evo Morales são exemplos desse novo momento, onde as nações latino-americanas buscam afirmar sua soberania. A ALCA vem sendo barrada progressivamente. As tentativas de golpe são rechaçadas e cada vez mais países dizem não ao império. Neste cenário, o Brasil surge com destaque.
A eleição de Lula a presidente marcou o início de uma nova fase no enfrentamento ao extremismo liberal responsável pelo desmonte do estado nacional e pela massacrante degradação da qualidade de vida de nosso povo. Este marco também ajudou a fundar as bases da nova correlação de forças na América Latina. Lançadas essas bases, não cabe aos movimentos sociais e organizações políticas o papel de espectantes da disputa pelos rumos nacionais.
Os movimentos sociais e partidos ou correntes da esquerda têm papel central na luta progressista. Cabe a eles mobilizar o povo por mudanças mais profundas, criando as condições políticas e sociais necessárias para que se concretize amplamente o programa de desenvolvimento nacional, vitorioso nas últimas eleições. Do sucesso desse programa depende o presente e o futuro de nossa geração, que vive cercada pela miséria e desesperança, ameaçada pelo desemprego e pelas guerras.
A mudança revolucionária de que o país carece, só pode ocorrer se feita pelo povo. É, com efeito, ao povo que os revolucionários devem se voltar, e dele que eles devem surgir. Nesse caminho, surge o Levante! Por mais que proclamem o fim da história e o fracasso do ser humano, insistimos na superação do velho e caduco capitalismo. Há séculos, lutamos nos quilombos, nas selvas, nas praças e ruas do Brasil. Nos chamamos Zumbi, Tiradentes, Castro Alves, Praxedes, Osvaldão, Amazonas, Honestino – temos milhões de nomes. Enfrentamos as trevas da tirania, da guerra e da exploração capitalista – sem jamais perdermos a ternura. Muito sofremos e aprendemos. Calejados e sempre esperançosos, aqui estamos. Sabemos de onde viemos e pra onde vamos. A tirania tentou nos derrubar. Estamos de pé! Assim permaneçamos!
Manifesto apresentado na plenária de fundação do Levante!


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